Portugal ganhou adversário, o Mundial ganhou outra história – Observador

Portugal ganhou adversário, o Mundial ganhou outra história – Observador

Tudo aos saltos, um sem número de instrumentos a multiplicar sons que se cruzam em tom de orquestra sem maestro, roupas de todas as cores menos quando se agrupam apoiantes de um só conjunto. Um encontro da Taça das Nações Africanas é muito mais do que um mero jogo de futebol – ou melhor, é futebol no seu estado mais puro, onde o sentimento de paixão inunda tudo e todos numa conjugação complicada de encontrar em qualquer outro ponto do mundo. A última edição, entre dezembro e janeiro deste ano, foi mais um exemplo paradigmático disso mesmo descontando a autêntica rábula que marcou a decisão last e que fez mesmo com que o Senegal guardasse o troféu junto das suas forças militares perante o triunfo na secretaria do anfitrião Marrocos por decisão da Confederação Africana do Futebol. Os episódios nessa partida foram no mínimo insólitos, a punição dois meses depois ainda mais. Contudo, houve outros “heróis” ao longo da prova.

O nome de Michel Kuka Mboladinga, também conhecido como Michel Kuka ou Lubumba, não dirá muito ao leitor. Não é jogador, não é dirigente, é apenas um adepto. Ainda assim, é tudo menos um adepto qualquer. Puxando a fita atrás, e numa imagem que se tornou viral, o mais conhecido seguidor da seleção do Congo notabilizou-se por, ao contrário da ordinary agitação que se vive nas bancadas, assistir a todos os jogos da sua equipa parado. Literalmente parado, como uma estátua. Vestido a rigor com fatos que ostentam as cores do seu país, Kuka tenta homenagear Patrice Lumumba e é por isso que, desde 2013, vai a todos os encontros que consegue do Congo para ficar 90 minutos como a estátua que o antigo sindicalista e político assassinado em 1961 com apenas 35 anos tem em Kinshasa. “É uma missão patriótica”, contou numa entrevista. “Não só é uma forma de apoio como um gesto que respeita a história e identidade do Congo”, completou.

Agora, Michel Kuka estava apenas a um jogo de realizar o sonho de ter a oportunidade de fazer o mesmo no maior dos palcos internacionais do futebol: o Campeonato do Mundo. Nem mesmo na antecâmara do jogo decisivo o caminho foi fácil, com a conferência de imprensa do selecionador Sébastien Desabre, na cidade mexicana de Zapopan (Guadalajara) a ser interrompida de forma abrupta com o alarme de incêndio e fumo que saía do sistema de ventilação do espaço. Ficou sobretudo mais um susto numa caminhada longa que, após o segundo lugar no grupo do Senegal, teve triunfos frente a Camarões e Nigéria até chegar ao playoff intercontinental onde partia como claro favorito no duelo diante da Jamaica que iria ditar o primeiro adversário de Portugal no grupo Ok da fase last do Campeonato do Mundo, antes de Uzbequistão e Colômbia.

“Se temos receio da República Democrática do Congo? Bem, David contra Golias é a minha história favorita na Bíblia… Por isso, estamos confiantes de que podemos surpreender. Já estivemos num Mundial antes, por isso presumo que aquele jogo de qualificação também tenha sido muito importante. Sabemos que a Jamaica está ansiosa por isso e precisamos de lhes dar um motivo para sorrir. É para isso que estamos aqui. É um esforço coletivo, de jogadores e equipa técnica. Sabemos da importância da partida não só para o nosso país, mas também para eles, pelo orgulho pessoal e pelo que querem alcançar nas suas carreiras. Todos estão conscientes do que está em jogo e vão dar tudo de si”, apontara Rudolph Speid, técnico interino dos Reggae Boyz que assumiu o comando da equipa em novembro e que bateu antes a Nova Caledónia por 1-0.

Com vários jogadores de Championship e League One entre a estrela Leon Bailey, do Aston Villa, a formação que period comandada por Steve McLaren encontrou em Ronaldo Romário Webster a sua grande figura neste playoff intercontinental, saindo do triunfo diante da Nova Caledónia como MVP e não demorando a dar nas vistas pelo nome ligado ao futebol que joga nesta altura no modesto Shkëndija da Macedónia do Norte. O sonho de repetir a presença no Mundial como em 1998 estava viva mas period o Congo que partia na frente em busca também de uma segunda participação numa fase last depois de 1974 ainda como Zaire. E argumentos não faltavam: esta period a equipa de Chancel Mbemba, central que passou pelo FC Porto (está hoje no Lille), Aaron Wan-Bissaka, Cédric Bakambu, Yoane Wissa ou Simon Banza, entre outros destaques.

“Foi uma longa campanha de qualificação e aqui estamos nós, perante a etapa final, que é geralmente a mais difícil. Sabemos que vamos jogar esta partida por todo o país e por todos os que nos apoiaram. Queremos continuar a avançar para demonstrar que o futebol congolês está ao mesmo nível de outras nações, que este é um grande país do futebol e que temos muito bons jogadores. É a esperança de todo um país, de toda uma geração de congoleses que não teve a oportunidade de ver a sua seleção num Mundial. Isto representa também o culminar de todo o trabalho que realizámos nas eliminatórias”, destacara Sébastien Desabre, francês que assumiu o comando do conjunto africano em 2022 e estava perto de fazer história.

E essa história podia ter sido diferente emblem nos minutos iniciais, com Bakambu a inaugurar o marcador com um desvio subtil na área que acabou anulado por fora de jogo (5′). O Congo estava melhor, assumia o controlo, fazia a diferença pela forma como condicionava a primeira fase de construção da Jamaica com uma pressão alta mas continuava a falhar no último terço, com Andre Blake a travar a melhor oportunidade da primeira parte num remate de Elia na área (35′) já depois de um remate do avançado do Alanyaspor que ficou nas malhas laterais (22′). Só mesmo nos minutos finais do primeiro tempo houve uma tentativa de resposta, com Leon Bailey a ter o melhor lance dos jamaicanos num remate que saiu pouco ao lado (41′).

O segundo tempo teve ainda menos motivos de interesse no arranque do que a primeira parte, neste caso com Bakambu a obrigar Andre Blake a mais uma grande intervenção (46′) antes de um autêntico “marasmo” sem balizas numa fase em que a Jamaica parecia até conseguir algum ascendente na partida. No entanto, e nos minutos finais, o Congo voltou a carregar, com Bakambu a ver mais um golo anulado por fora de jogo (86′) entre várias tentativas que continuavam sem desfazer o nulo. A partida acabou mesmo por seguir para prolongamento e foi aí que a bola parada acabou por ser determinante: na sequência de um canto, Tuanzebe apareceu de rompante na área e fez o desvio sem hipóteses para Blake que carimbou a passagem (100′).

  • Ranking FIFA atual: 48.º
  • Melhor rating FIFA: 28.º (julho e agosto de 2017)
  • Presenças: 2.ª participação (uma como Zaire)
  • Qualificação: qualificação através do playoff intercontinental, Jamaica (1-0 a.p.)
  • Melhor resultado em Mundiais: fase de grupos (1974)
  • Títulos: 2 Taças das Nações Africanas (1968 e 1974) e dois Campeonatos Africanos (2009 e 2016)
  • Patrocinador: Umbro
  • Ligação a Portugal: Mbemba, central e capitão de equipa do Congo,
  • Treinador: Sébastien Desabre, francês de 49 anos (Valence)
  • Capitão: Chancel Mbemba (Lille)
  • Estrela: Cédric Bakambu (Betis)
  • Mais internacional: Chancel Mbemba (107 jogos)
  • Melhor marcador: Dieumerci Mbokani (22 golos)
  • Últimos jogos: Bermudas (2-0, V), Bermudas (2-0, V), Argélia (0-1 a.p., D), Botswana (3-0, V), Senegal (1-1, E) e Benim (1-0, V)
  • 17 de junho: Portugal-Congo (Houston, 18h)
  • 18 de junho: Uzbequistão-Colômbia (Cidade do México, 3h)
  • 23 de junho: Portugal-Uzbequistão (Houston, 18h)
  • 24 de junho: Colômbia-Congo (Guadalajara, 3h)
  • 28 de junho: Colômbia-Portugal (Miami, 00h30) e Congo-Uzbequistão (Atlanta, 00h30)

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